Assédio no Esporte, é hora de dizer não!
4 de novembro de 2016
Ana Elisa Faleiros (1 article)
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Assédio no Esporte, é hora de dizer não!

 Da simples cantadinha a atitudes violentas, as mulheres são alvos constantes dessa prática vergonhosa enquanto estão treinando 

Antes de entrar no tema desta matéria, gostaria que todos pensassem comigo sobre uma situação bem simples: uma mulher que gosta de esportes e precisa treinar. Então, qual é o problema nisso? Por que ela simplesmente não coloca sua roupa e vai? Porque, a partir do momento que ela decide fazer isso, várias questões entram em jogo…

O assunto que quero abordar neste texto talvez seja algo distante da realidade de alguns atletas, mas é constante na vida das mulheres esportistas. Ele se caracteriza por olhares, gestos, falas e ações contra o público feminino que pratica atividades físicas. Ele engloba aquela simples cantadinha, muitas vezes tida como elogio, até atos violentos. O assédio não tem local nem hora para acontecer. Ele acontece a todo momento e em lugares movimentados. E por que o assédio ocorre? O motivo é cultural! Os homens foram criados e cresceram em ambientes onde são estimulados a terem esse comportamento. E quando o fazem, não são coibidos por seus familiares e amigos. Em alguns casos, ao terem essas atitudes, eles também tentam provar sua superiodade perante o sexo feminino. Então, os determinantes de que ela sofrerá o assédio não são a maneira como se comporta, se veste ou os locais que frequenta. E aqui entro em outro ponto: a liberdade de praticar seu esporte.

No meu caso, que sou corredora de rua e de trilhas e optei por um treinamento fora de assessorias de corrida, sempre me deparo com alguns problemas: aonde vou treinar? O meu marido ou alguém poderá ir comigo? Em que horário praticar minha corrida? Nós, mulheres e esportistas, sempre dependemos dos outros para fazer nossos treinamentos. Não temos a liberdade de simplesmente sair às 20 horas e ir correr em uma avenida da cidade. Em trilhas, ainda é mais difícil. Temos que, constantemente, ir atrás de grupos de corredores, dos nossos parceiros e treinadores para termos companhia. Ficamos presas e dependentes. E já estive em situações em que estava acompanhada de outras corredoras e em uma via movimentada, e mesmo assim, tivemos que passar pelo constrangimento de ouvir: “Oh princesa, vai correr lá em casa!”. A partir do momento que o assédio sexual ocorre, sendo ele com violência física ou não, devemos pensar em como agir e que medidas tomar. A situação do assédio às mulheres praticantes de corrida de rua em nossa cidade está ficando cada dia mais insustentável. Nos sentimos acuadas, amedrontadas e fragilizadas. Precisamos sempre correr em bandos, porque o assédio se faz sempre presente. Assédio em todas as suas formas: moral, físico, psicológico. Moramos em uma cidade tão bonita, com tantos lugares em potencial para praticar a corrida, extensas avenidas de pavimentação plana, mas infelizmente somos vencidas pelo medo. Precisamos mudar isso. São necessárias políticas públicas eficazes de proteção às mulheres seja onde quer que estejam. A corrida é um esporte tão democrático e acessível a todos, mas torna-se inviável por falta de segurança e/ou excesso de machismo cultuado por uma sociedade tão desenvolvida em alguns aspectos e em outros tão arcaica. Vejam os depoimentos de Mirian Pamplona e Beatriz Candido:

Mirian Pamplona, 42 anos, empresária

“Sempre pratiquei atividade física. Além da corrida, gosto muito de pedalar. Já passei por várias situações de desrespeito e medo quando estou treinando. Em um de meus treinos de pedal aconteceu um fato muito desagradável que para mim foi a situação mais constrangedora porque passei. Estávamos em uma turma grande, mas com apenas duas mulheres; como não conseguimos acompanhar o ritmo dos homens, acabamos ficando sozinhas na rodovia. Pedalávamos no acostamento, minha amiga do lado de dentro e eu do lado de fora; então veio uma moto e o motoqueiro deu um tapa em meu bumbum. Fiquei com muito ódio. O covarde, um mototaxista, escondeu a placa da moto com o colete. Situações como esta nos deixam além de furiosas, tristes por não podermos praticar com segurança o esporte que gostamos.”

Beatriz Candido, 38 anos, personal trainer

“Adoro atividade física. Minha experiência com corrida é mais antiga e já dura treze anos como praticante, porque sempre dei aulas desse desporto, e normalmente nas ruas. E o assédio que incomoda, parece fazer parte dessa modalidade, principalmente para nós, mulheres! Correr, como já se fala, é um esporte democrático, pois é só calçar um tênis e sair por aí… Pois é, esse é o nosso medo! Como professores, os alunos muitas vezes nos procuram, mais para companhia nas ruas do que para ensinamentos… Quando faço meus treinos, sempre nas ruas de Uberlândia ou parques, me deparo com aquele sentimento: medo, que roupa usar? Uma roupa que chame menos atenção para que os ‘homens’ da rua não ‘mexam’ comigo! É triste, qualquer que seja o modelo de roupa que você estiver usando, seja colada no corpo ou não, eles se acham no direito – porque você está sozinha, correndo – de mexer, de intimidar, falando palavras baixas, deixando você com medo! Foi aí que pensei em contratar uma assessoria de corrida para não correr sozinha. Mas mesmo assim eles mexem, buzinam, nos intimidam, nos amedrontam… a quem recorrer? Se eles passam, não param! Se param, é um pouco na frente e a gente prefere voltar… Muito constrangedor e revoltante para nós, mulheres, que queremos apenas praticar nosso esporte com segurança, ao ar livre, onde temos todo o direito, mas sempre com muito medo! Encerro, com a esperança de que na educação dentro de casa, as mães possam ensinar seus filhos homens a serem respeitadores e cordiais para com as mulheres, sejam elas quem for: as coleguinhas na infância, a mãe, a amiga, a esposa, a qualquer pessoa da rua! Porque aí o RESPEITO nas ruas acontecerá!”

“Devemos tratar e conscientizar, principalmente os homens, sobre o assédio sexual nos esportes. O assédio sexual é mais frequente do que muitos imaginam.”

 

 

 

 

Ana Elisa Faleiros

Ana Elisa Faleiros

Ana Elisa de Souza Falleiros é administradora de empresas, mestre em Administração, formada na Universidade Federal de Uberlândia, CRA nº 33778.

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