Brazil Br135+, Leo Guerra fala sobre sua experiência em uma das mais duras ultramaratonas do País
18 de março de 2016
Leo Guerra (1 article)
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Brazil Br135+, Leo Guerra fala sobre sua experiência em uma das mais duras ultramaratonas do País

A Brazil 135+ foi inspirada na Badwater, do Vale da Morte, nos EUA, e é considerada a prova contínua mais difícil do Brasil.

Às 8 horas de uma quente manhã de quinta-feira, na montanhosa cidade de São João da Boa Vista (SP), foi dada a largada de mais uma Brazil 135+, tradicional prova brasileira, considerada a ultramaratona mais dura do Brasil, com atletas de 10 países, preparados para o pior.

“Estreante na prova, minha ideia era tentar correr os 253,2 quilômetros em 60 horas, pois o corte era após 62h30min.””

Ou seja, se eu demorasse mais que isso para cruzar a linha de chegada, seria cortado da prova, e meu tempo não seria oficialmente válido. Mas são muitos os obstáculos que podem tirar o corredor de uma ultramaratona, como bolhas, hipoglicemia, desidratação, hiponatremia (desequilíbrio de eletrólitos no sangue, podendo causar edema cerebral e até a morte), torções e lesões diversas, proteólise (quebra de proteína muscular, resultando em perda de massa magra), fadiga muscular, irritação estomacal, vômitos, diarreia, entre outros. Se a saúde não estiver bem, todo o resto será comprometido. Minha equipe de apoio era composta por Adriana Scaranti, experiente ultramaratonista e grande amiga; e pela minha mulher, Bianca Lessa, corredora de montanha casca-grossa, que levava em seu ventre nosso(a) filho(a). Essas grandes mulheres me ajudaram muito antes, durante e depois da prova. Quando as encontrava nos pontos combinados, eu tinha massagem, comida quente, meias secas, pomadas para os pés. O fato de eu ser vegetariano não atrapalha em absolutamente nada meu rendimento, e consigo obter todos os nutrientes de que preciso sem me alimentar de nenhum ser senciente. Minha principal fonte de alimentação vem da comida: macarrão, arroz com grão-de-bico e amêndoas, bolo de tapioca, rapadura, batata, inhame, beterraba e frutas. Também levei mel, géis de carboidrato, energy balls (uma bola compacta que fazemos com grãos), e doses de whey protein para intervalos de tempo regulares. Para hidratação, isotônicos em pó, cápsulas de sal, e principalmente soro em pó.

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Mas a minha maior motivação foi a campanha que fizemos para arrecadar doações para o Cantinho do Céu, um hospital de Ribeirão Preto, que cuida de crianças com paralisia cerebral. Eu me lembrei disso durante todo o caminho, mentalizando as crianças e o quanto podíamos ajudá-las com ações simples. Este se tornou o maior objetivo da corrida para mim, pois não me faz mais sentido correr longas distâncias apenas para satisfazer meu ego.

“Mas ainda considero a cabeça o nosso pior monstro, o mais implacável e impiedoso (além de único) inimigo real, capaz de acabar com você.”

No primeiro trecho, entre São João da Boa Vista (SP) e Águas da Prata (SP), cruzei o para-atleta norte-americano Andre Kajlich, em sua cadeira de rodas. O que vi me deu forças para toda a prova: uma subida íngreme onde Kajlich segurava no braço as rodas de sua cadeira, alternando com empurradas homeopáticas para continuar progredindo. Dois atletas de apoio ficavam na retaguarda, sem tocá-lo, apenas de prontidão atrás da cadeira, para evitar que ele perdesse o controle e a cadeira descesse a rampa de ré. Menos de um minuto depois que o cruzei, atravessamos pela lateral uma cerca fechada, e entramos em uma trilha única (singletrack), ligeiramente técnica. Fiquei longos períodos sem encontrar ninguém, em uma espécie de retiro espiritual, apenas com a companhia de gambás e cães das fazendas.

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“Durante toda a trilha, eu não parava de me perguntar como seria a progressão de Kajlich e sua cadeira por esse trecho.”

E a prova só piorava a cada trecho, cada quilômetro. Subidas cada vez mais frequentes e íngremes à medida que o cansaço e sono batiam. Mas a sintonia com minha equipe de apoio era cada vez mais afiada, e nos comunicávamos muito. Elas pareciam saber exatamente o que eu precisava a cada trecho em que nos encontrávamos, qual tipo de comida ou bebida eu gostaria/conseguiria ingerir naquele momento, a que horas eu gostaria de dormir. E por falar em dormir, fiz isso bastante, em basicamente duas paradas longas: a primeira, quando dormi uma hora, em Borda da Mata (MG); e a segunda, uma hora e meia, em Paraisópolis (MG), ambas em meu aconchegante saco de dormir.

“Passei duas noites especiais no caminho, onde mal usei minha lanterna de cabeça. A irradiante lua cheia iluminava todo o caminho, cobrindo com sua luz branca as montanhas da Serra da Mantiqueira.”

Todo esse tempo foi muito revigorante para mim, pois quando atleta de corrida de aventura (esporte composto de três modalidades, em que os atletas passam dias correndo, remando em caiaques e pedalando, em percursos não demarcados, utilizando como orientação mapas cartográficos), eu costumava dormir entre 20 e 30 minutos em cada soneca.

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Às 10 e 4 da manhã de sábado me despedi da minha equipe de apoio, na última olhada para a barriga linda da minha mulher, e lembrei que homem também chora e fui, em direção ao último trecho da prova, a tão temida Serra da Luminosa.

Saí bem alimentado e hidratado, e feliz de ter conseguido chegar bem até ali, sem bolhas, sem lesões. Lembrei de tudo o que passei até então, da dedicação das meninas que me davam o último “boa sorte”, do para-atleta Andre Kajlich, das crianças-anjos do Cantinho do Céu. Sentia-me assustadoramente bem, mesmo com o forte calor, e depois de já ter corrido 236 quilômetros até a minúscula Luminosa, último ponto de parada, à medida que eu subia, a serra ficava menor, e menor, e menor. Talvez a intensidade natural do percurso, com suas araucárias, cachoeiras, vales e montanhas, tenha contribuído. Concluí a prova às 12h29 de sábado, com muita emoção ao lado de minha equipe.

“Não sei de onde veio aquela força que fez com que esse fosse meu mais rápido e intenso trecho (em 2h25min), com força total, e em grande e surpreendente velocidade.”

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Terminei com o tempo de 52h29min e em 13º geral na categoria solo. Mas discordo do nome dessa categoria, pois é uma prova em equipe: a equipe de apoio é fundamental para o bem-estar dos atletas. Eles também têm que lidar com a privação do sono, com o cansaço físico e mental e se manterem firmes para tomadas de decisão e estratégias. O atleta não faz nada demais, só corre; a equipe de apoio, praticamente o coloca na linha de chegada.

““Na Brazil 135+ tudo é amplificado: distâncias, subidas, temperaturas, sensações, dores, cansaço, emoções, união. Aproxima as pessoas, os atletas, as equipes de apoio, e todos os que passam pelo caminho. Aliás, é o Caminho da Fé, sagrado por si só.” .”

Gostaria de agradecer algumas pessoas, pois sem elas eu não teria nem ao menos conseguido largar: minha equipe Bia e Dri, meu amigo Vitor Rage, meu treinador Rodrigo Inouye, meu primo-irmão Fredy Guerra, meu professor de ioga André Brochieri, Dani Gil, Xande Vianna, Naiara Faria Xavier e Fernanda Crysostomo (vocês são demais!); aos atletas e brothers Filipe Oliveira e Messias (e TODA a sua equipe de apoio), e a meu pai, Jose Miguel. Todos tiveram uma contribuição crucial, da qual me lembrarei e agradecerei por toda a minha vida. Obrigado também a todos os meus apoios e parceiros: Rocky Truck – Outdoor Healthy Food, Cia Athletica Ribeirão Preto, Fun Sports, Tendência Outdoor Assessoria Esportiva, Kailash Brasil, Top Diet, Drogalíder e, especialmente, todas as pessoas que fizeram doações ao Cantinho do Céu!

“Dos 68 inscritos na categoria 260 quilômetros, apenas 22 chegaram até o fim da prova.”
Leo Guerra

Leo Guerra

Comentários

  1. Daniel Alencar
    Daniel Alencar dezembro 10, 09:45
    Primeiramente parabéns Leo Guerra, muito gratificante e motivante foi a sua historia aqui relatada na revista triangulo esporte, show demais já o admiro algum tempo como atleta, aliás tenho vários guerreiros como você que agrego na minha caminhada, abraços.

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